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sábado, 16 de agosto de 2008

Ai mundo..

Vou contar uma história que meu avô me conta enquanto minha avó reclama, dizendo que é uma "extracharia". "Extracharia" - não estou certa se grafo corretamente, ou mesmo se há uma grafia correta - significa, na língua da minha família, uma coisa fraca, porcaria por si só. Um dia ainda documento todo o vocabulário.
Enfim..A história é a seguinte:

Uma senhora tinha um gato chamado Mundo. Belo dia chegou em casa uma visita para a senhora, uma amiga. A senhora, sem nome como a visita, foi recepcionar a outra. No entanto, havia deixado um frango assado em cima da mesa, tirado então do forno, quentinho e douradinho.
Mundo, o gato, morria de fome. E sua dona, a mulher, havia sido pega na conversa de forma inescapável pela visita inoportuna. Idosas, o assunto regido era o falecimento de amigos, já que a visita vinha trazendo a notícia de mais um deles que se ia. Gato sabido, Mundo percebeu que sua dona não poderia sair da companhia da visita e deixá-la às lágrimas. Correu para a mesa, prendeu o frango nos dentes e o levou para baixo do sofá. A dona via, desesperada, seu frango ser comido aos poucos. E desesperava-se mais por não poder fazer nada, já que a visita lhe prendia na prosa. Soltou, então, a moral da história:
- Ai Mundo, de um em um vai indo tudo..
- É, daqui a pouco vamos nós - respondia a visita, mal sabendo que, de fato, a senhora falava com o gato dos Mundos.

Tudo isso para dizer que o mundo levou mais um hoje. Dorival Caymmi, com 94 anos, partiu na manhã deste sábado.
Entre inúmeras e belas composições, destaco Marina. Belíssima letra e que meu avô - o mesmo narrador da bela história do Mundo - canta pra mim há 19 anos.
Não canso de ouvi-lo, se querem saber.
E é uma bela homenagem às Marinas. O que me envergonha de ter prestado ao autor tão fraca homenagem com a história do Mundo.

Aqui, um vídeo com "A preta do Acarajé", com voz, violão e composição de Caymmi.
Crédito pro pessoal da comunidade de Dorival no Orkut.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

A caretice na psicodelia musical brasileira (ou vice-versa)

Quem vê o senhor distinto, boa-pinta e de fino trato apresentando um programa de variedades direcionado ao universo feminino na TV Gazeta não imagina quantas águas já rolaram para que ele conseguisse essas rugas de maneira tão natural e serena. As cicatrizes da velhice de Ronnie Von guardam histórias da música brasileira que nunca ninguém jamais contou.

Em 1968, Ronnie Von era muito mais moderno do que os jovens de hoje. Saiu do ambiente familiar de filho-de-pai-nobre e caiu na estrada: foi um dos precursores da música psicodélica brasileira (MPB?) ao lado da turma da Tropicália, de Walter Franco e outros malditos, antes de seguir a linha da Jovem Guarda e do bubblegum-pop. Lançou os Mutantes em seu programa musical na TV, fez experimentações musicais tão inovadoras quanto às de discos que marcaram época (como Pet Sounds, dos Beach Boys, e We’re Only In It For The Money, do Mothers of Invention) e contribuiu para abrir novos caminhos para a música brasileira. Quem diria que Ronaldo Lindenberg von Schilgem Cintra Nogueira, o Pequeno Príncipe, fez rock ‘n roll de verdade?

Ronnie Von - Ronnie Von (1968) Ronnie Von - A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império do Nuncamais Ronnie Von - A Máquina Voadora

A Universal acaba de relançar dois dos discos da “trilogia psicodélica” do cantor, Ronnie Von (1968), e A Máquina Voadora (1970), cometendo um deslize enorme ao não colocar no mercado A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império do Nuncamais, de 1969. No entanto, quem procurar em sebos especializados pode desembolsar algumas boas centenas de reais para adquirir os discos raríssimos. Para os não-afortunados, há sempre a internet.


Puxando os fios da memória
Em 1966, a beatlemania aproximou Os Mutantes do apresentador prodígio (foi ele, inclusive, quem batizou a banda com o nome definitivo). Seu programa, O Pequeno Mundo de Ronnie Von, que fazia referências a ficção científica, contos de fada, ocultismo e outras viagens, concorria com o programa Jovem Guarda, do “Rei” Roberto Carlos. Então com 22 anos, pretendia fazer do programa um palco de experimentações, de inovações musicais. Misturou rock com música barroca, Beatles, pop e música erudita. Queria mostrar que Ronnie Von não era só “Meu Bem”, versão pegajosa de uma música dos Beatles que estourou nas paradas de sucesso e o levou ao estrelato.

Ronnie Von foi além, e criou músicas como “Meu novo cantar”, um maravilhoso poema cantado, a orquestrada “Pare de sonhar com estrelas distantes”, a balada-blues “Viva o chopp escuro”, a pesada e “A Máquina Voadora” e “Anarquia”, um emocionante grito de liberdade:

“Prepare tudo o que é seu / Veja se nada você esqueceu / Pois amanhã vamos pra rua fazer / Fazer uma tremenda anarquia / Pintar as ruas de alegria / Porque quem manda hoje somos nós, mais ninguém / E não ligamos pra quem vai nem quem vem atrapalhar”
Mesmo as versões de músicas de outros compositores, como “Comecei uma brincadeira” (I Started a Joke, dos Bee Gees), “Dindi” (Tom Jobim) e “Atlântida” (do contemporâneo Donovan) possuem originalidade e uma roupagem inteiramente nova.


Mais um capítulo felizmente inacabado
O assunto está tão “na moda” que chega a ser maçante a quantidade de notícias espalhadas por aí anunciando o relançamento dos discos do Ronnie Von. Como sempre, o jornalismo brasileiro se contenta em jogar na cara do leitor um fato isolado e, no máximo, faz uma pequena retrospectiva sobre o personagem. Resultado? O leitor conhece a história de “Ronnie Von, um rockeiro que não deu certo”, ou então, “Um vovô brega que foi louco por uns dias”.

Para destrinchar o passado e contextualizar Ronnie Von e toda a chamada psicodelia brasileira, um grupo da faculdade de jornalismo Cásper Líbero está produzindo um livro-reportagem chamado Um mergulho na geração bendita. No blog que acompanha os bastidores do projeto é possível ler entrevistas com o Ronnie Von, além de dados e outras fontes fundamentais desse período ainda obscuro do nosso país poço de riquezas perdidas a serem (novamente) resgatadas.

Então, prepare tudo que é seu.


* Fábio Bonillo não mais se envergonha de vir às lágrimas escutando Belchior e Guilherme Arantes