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sábado, 20 de setembro de 2008

Olha como são as coisas..

Todas elas. As coisas. Veja como são.
Nunca gostei muito de computador. Não gosto muito de 'modernidades' porque, depois de um certo ponto, as coisas continuam a evoluir, mas eu paro de acompanhar. E esse ponto não demora muito a chegar.

Mp3, computador, acelerador de partículas, iphone, celular com 987987 funções, ou mesmo um celular por si só, não são coisas que muito me atraem.

Por ironia do destino, tenho passado muito mais tempo no computador do que queria. Muito mais tempo do que a média exagerada do mundo hoje.
E coincidentemente, muitas coisas que têm acontecido, quero colocar aqui.
Ao mesmo tempo, muitas coisas que têm acontecido, devo colocar, por obrigação, em outros lugares.

Ou seja, tudo isso pra dizer que, de qualquer jeito, eu sou obrigada a usar a máquina. E muito.

No meio de tudo, clicada vai, clicada vem, fiz um caminho:
Entrei aqui no Soma, cliquei no link do blog da Fernanda D'Umbra, de lá fui pro do Mário Bortolotto e nele achei o trailer do filme "Feliz Natal", a estréia do Selton Mello na direção.
O crédito do trailer e da entrevista com o Selton no começo são do site Omelete.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A nova lei

Hoje me comprometi a postar. Não sei bem como vai funcionar essa promessa onde um promete em nome do outro e o outro fica sabendo através de uma intimação do outro. Espero que funcione da minha parte. E hoje vai a primeira tentativa. É nós.
Não tenho assunto, no entanto, relevante, para que gastem seus preciosos tempos comigo. Apenas comentarei.

Sobre o enredo do novo filme do Eddie Murphy, o G1 publicou:

"No longa, Murphy é o pequenino capitão da nave espacial que tem a missão de resolver a crise de energia em seu planeta de origem. A tripulação deve achar um objeto parecido com uma bola de beisebol que caiu por engano na casa de uma família nova-iorquina e jogá-lo no mar. A questão é que a bola vai drenar os mares e, além de acabar com o problema de abastecimento deles, destrói a vida na Terra. Uma questão que o capitão, após se acostumar com o nosso jeito de viver, vai ter que decidir. Mas o roteiro não é importante. A trama é só uma desculpa para Eddie Murphy se mostrar. E ele aparece em dose dupla."

Alguém diga ao Eddie Murphy, pelo amor de Deus, que não vale mais a pena fazer filmes assim?
Me lembro do meu pai voltando feliz da locadora com "Pluto Nash" na mão, dizendo que alugou porque achava que ia ser engraçado. A família toda sentou para ver o começo. Mas nem meu pai ficou para o final.

Filmes ruins com humor sem graça. Nesse caso, essa é a lei de Murphy.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Proposta

É só uma sugestãozinha. Nada mais. Para os donos de cinema. Vocês deveriam começar os assentos das salas na quarta fileira, porque a terceira é muito ruim. A segunda é pior ainda. E a primeira não dá. Porque quando você senta numa delas, faz uma escolha: ou vê o que passa, ou lê a legenda. E vê bem mal. Dá ânsia. Pra ler, tem que virar a cabeça. Aí não dá mesmo.

Fui ver "Jogo de Amor em Las Vegas" - é isso aí, vai encarar? - nesse final de semana e sentei na terceira.
Como era de se esperar, até se eu tivesse na última, não foi muito bom, não.

E, tá, eu sei que não dá pra começar uma sala na quarta fileira porque ia perder espaço, ter que colocar as três atrás gastaria mais dinheiro e, mesmo sendo horrível sentar lá, estavam todas ocupadas. Mais dinheiro para o cinema, menos prestígio para minha sugestão.

Tá, eu sei mesmo. Mas deixa. Eu quero falar.

Ah, e sobre o filme?
Algumas das partes em que eu estava olhando pra cima, ri.
Mas tive sorte, porque era um filme que eu não precisava estar olhando 100% do tempo para a tela para saber o que ia acontecer.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Olha,...

...eu não quero ser grossa.
E digo isso por dois motivos.
Primeiro porque vou postar uma crítica mal-humorada que fiz de um filme.
Segundo porque faço isso mais por obrigação. Acho chato ficar muito tempo sem ter nada por aqui. Ultimamente o blog tem andado "somancando". Hã, hã?

Enfim, a crítica é do "Sex and the City" e eu não sou engraçada.
Pode parar de ler por aqui.

Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda desbancaram Indiana Jones nas bilheterias dos Estados Unidos logo na semana de estréia. Mas esse é o máximo que se pode dizer do filme Sex and the City, adaptação do seriado homônimo e de grande sucesso, produzido pela HBO.
A série, que estreou em 1998 e durou 6 anos, é até hoje vista como responsável pela quebra de alguns tabus na televisão e por ser dona de uma forma inovadora de se fazer TV.
Justamente por essa importância, grandes episódios e milhões de fãs pelo mundo, as personagens mereciam mais na grande tela. Mais roteiro.
A história serve como pano de fundo para as quatro amigas, mas gira em torno de Carrie (Sarah Jessica Parker) e seu relacionamento com Mr. Big (Chris Noth), agora num ponto mais distante do que estavam no seriado: às vésperas do casamento. Todo esse enredo é fraco e a impressão que se tem é de estar assistindo a um episódio “looongo”. São mais de 140 minutos, nos quais pouca coisa acontece, mas troca-se muito de roupa. E, para quem está interessado em analisar o figurino, aí está uma boa opção, porque só a protagonista Sarah Jessica usa 80 diferentes modelitos. São, entre todo o elenco, mais de 300.
Parece que o roteiro foi adaptado às roupas.
E, para se ter um bom filme, deve acontecer o contrário.


domingo, 7 de outubro de 2007

Últimas

O que anda acontecendo (no meu) mundo:


A última sessão de cinema
Na coluna "This Land" deste domingo, o jornalista Dan Barry narra a trajetória das salas de cinema da cidade de Bexley, Ohio, num texto brilhante e acolhedor. Ler a matéria faz você se sentir num passado distante, prestes a ser massacrado pelo futuro, mas também acaba conhecendo quase intimamente um personagem que faz da nostalgia uma forma de descobrir novos mundos – através dos filmes.

A coluna do Dan Barry (que trabalha no Times desde 1995 escrevendo sobre política, Nova York e outros assuntos, e já ganhou trocentos prêmios – inclusive o Pulitzer) sempre conta histórias de locais obscuros e desconhecidos dos Estados Unidos. Outra coisa interessante é a versão complementar "audio slide show" da matéria. É só imaginar um Power Point de nível jornalístico e altamente envolvente, que tem a voz de Barry na narração.


"O grande Murdoch"
Para entender e tentar antever o que será do jornalismo – ou de uma grande parcela da atividade jornalística mundial - nos próximos anos, é obrigatório ler o comentário de Steve Coll sobre Rupert Murdoch, o magnata que comprou por 5 bilhões de dólares o grupo Dow Jones de comunicação. Leia-se: debaixo de suas asas, agora estão o Wall Street Journal, um dos maiores do mundo, além de outros 100 jornais impressos, a rede de TV Fox, o MySpace e a 20th Century Fox. O império do australiano naturalizado norte-americano – uma espécie de Kane do século XXI, só que decrépito e puro osso – é avaliado em 30 bilhões de euros, o maior conglomerado de comunicações do mundo.

O texto de Steve Coll na The New Yorker mostra bem o perigo da jogada bilionária: mudanças na linha editorial investigativa e aprofundada do Wall Street Journal, padronização, cortes, nivelação da qualidade por baixo, etc. Também não deixa de citar a pisada na casca de banana administrativa que a família Bancroft, que controlava a empresa há 105 anos, acabou admitindo no próprio WSJ: "We are actually now paying the price for our passivity over the past twenty-five years".


Journal-ism
Os diários dos irmãos Goncourt parecem ser o retrato fiel, uma crônica espirituosa da turma parisiense da segunda metade do séc. XIX. Edmond e Jules, mais conhecidos pelo prestigiado prêmio das letras francesas, que leva o sobrenome da dupla (e com o qual já foram agraciados Proust, André Malraux, Simone de Beauvoir e Marguerite Duras) batem um papo animado com Flaubert, lamentam-se com Baudelaire e pensam ao lado de Rodin na Paris dos pintores impressionistas. Tudo é registrado com vivacidade. No trecho disponível no The New York Review of Books, um papo não muito animado com o russo Turguêniev, que já não dava mais no couro e estava, literalmente, cabisbaixo.

E por falar em diários, este artigo demonstra como a dedicação de escrever e manter um diário pode ajudar no aprendizado dos adultos. Alguns estudos mencionados no texto comprovam que escrever um diário é um meio de desafiar a ordem, discordar das autoridades e garantir um meio seguro para defender suas idéias. A partir da observação de casos estudados, um dos estudiosos dessa área chega a conclusão que o "journal writing is closest to natural speech, and writing can flow without self-consciousness or inhibition. It reveals thought processes and mental habits, it aids memory, and it provides a context for healing and growth. Journals are a safe place to practice writing daily without the restrictions of form, audience, and evaluation." O diário é o que chega mais próximo da autoreflexão na literatura. No processo de aprendizado, o escrever-para-si ganha outras dimensões quando é compartilhado.

A todo o momento, a autora Sandra Kerka salienta que não adianta apenas usar o diário como forma de registro, e sim como meio para refletir e dar sentido ao que cada um experimenta: "Writing is a critical ingredient in meaning making, enabling learners to articulate connections between new information and what they already know."

Alguns diários da literatura a serem lidos: __________ (preencha aqui)


Fraude, PhD
O Guardian da Inglaterra noticiou a proeza de um falso jornalista que forjou entrevistas com Kofi Annan, Bill Gates, Michael Bloomberg e Alan Greespan. O detalhe é que ele trabalhava como consultor na rede ABC, escrevia para jornais franceses e dizia ter um PhD na Sorbonne. 2 anos após a primeira suspeita (a ONU alegou que tal entrevista com Kofi Annan não constava dos registros), ele foi desmascarado. Dois anos.


Filme-catástrofe
O fotógrafo japonês Shuuichi Endou criou uma forma original para alertar o mundo sobre o aquecimento global. Apaixonado por Tuvalu, país prestes a sumir do mapa (está a apenas 10cm acima do nível do mar), ele está tirando fotos de todos os 11.000 habitantes do quarto menor país do mundo. O projeto do fotógrafo quarentão é minucioso. Quer catalogar todas as famílias e almas que num futuro próximo terão que fugir do país.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Os passageiros

O dia 30 de julho caiu como uma bomba no mundo do cinema. Com uma diferença de horas, os diretores Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni morreram 'tranquilamente' em suas casas. O sueco em sua querida ilha de Farö, com 89 anos de idade, o italiano em Roma, com 94.

Ambos foram embora deixando carreiras sólidas, filmografias notadamente intimistas e pessoais, que revolucionaram não só o conteúdo, como também a linguagem cinematográfica.

A grande época do cinema teve seus dias, e a morte desses dois grandes mestres me alertou para dados assustadores:

Woody Allen está com 72 anos.
E produzindo que nem um maluco, como sempre.

Clint Eastwood, que entrega pérola atrás de pérola, está quase entrando na casa dos 80.

Toda a turma da nouvelle vague francesa (que era nova só em 1960) já se encontra na casa dos 70, com exceção do François Truffaut, que já se foi. Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jacques Rivette, Alan Resnais e Eric Rohmer (o mais velho, com 87 anos) são ativos no cinema. Quem não suporta a 'nova onda' e tudo que tenha relação com a Cahiers du cinéma pode dizer que vaso ruim não quebra.

E tem um pobre coitado que está fazendo hora extra.

Manoel de Oliveira nasceu em 1908. 99 aninhos de cinema. De um cinema não lá muito interessante, por assim dizer.

Quem mais vai entrar no bolão pé-na-cova 2007?

Espero que nenhum deles.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Minha(s) boa(s) ação(ões)

Andei pensando sobre meu esforço pela comunidade: nunca fiz trabalho voluntário.

Por mais que essa revelação traga à tona meu obscuro passado, devo dizer que não mais sou motivo de críticas. Pelo menos quanto a esse assunto. Começo com resoluções a curto e longo prazo para benefício de algo ou alguém. Muitos projetos.

Fui ao cinema assistir a "Ela é a Poderosa". Em inglês, "Georgia Rule". Desnecessário comentar a tradução, ainda mais se visto o filme.

E a felicidade tomou conta do set de filmagens (Foto: austinchronicle.com)

A promessa, ou pelo menos minha expectativa, era de uma mera diversão adolescente. O enredo trata de três mulheres da mesma família que se encontram para que Rachel, depois de brigar com a mãe, passe uns tempos na casa de sua avó, Georgia, e viva sob regras. Uma história exatamente sobre família. E verdades e mentiras.

Com o trio principal envolvendo a veterana Jane Fonda, a esposa desesperada Felicity Huffman e a menina malvada Lindsay Lohan, me surpreendi e confesso que apreciei a história. Mas essa é a hora em que você me pergunta: E a boa ação?

Paguei seis reais e cinquenta centavos pelo ingresso. Calculando o valor de um dólar como dois reais, desembolsei, finalmente, U$ 3,25. Tanta matemática serve, apenas - e acredito que não tenha valido a pena - para que cheguemos à conclusão de que ajudei a compor os U$ 25.000 dólares da fiança de Lindsay Lohan, que estava sendo presa no momento em que eu assistia ao seu filme. Contribuí para que ela tivesse liberdade, com o perdão do trocadilho, para voltar a guardar cocaína - que não era dela - em seu bolso. Discordem os que quiserem, mas a solidariedade colocou a menina malvada na cadeia.

Não desanimei, porém, e pensei em algo inovador para daqui a 4 anos - tempo suficiente para que a idéia seja amadurecida e conquiste fiéis. Apresentar-lhes-ei-a. Para o Pan de 2011 proponho que as TVs possuam geradores de caracteres, digo, GCs, digo, 'coisas escritas na tela', em espanhol.

Levando-se em conta que a América Latina compreende o espanhol, ou mesmo um portunhol ou qualquer que seja a mistura castelhana, deve-se guiar pela maioria. Todos se sentiriam mais em casa.

Não digo isso pelo grau de dificuldade do que se escreve: basicamente temos que ler 'golden', 'silver', 'bronze' e 'medal'. Palavras-chave.
Mas é aquela velha questão do imperialismo ou do 'quem manda aqui', na qual insisto e ninguém dá bola.

Acho que devo começar mesmo é com um gesto simples, então.
Hmm..
Minha calça tem bolsos. Alguém quer que eu guarde alguma coisa?

terça-feira, 3 de julho de 2007

Sábia Vani

O jornal britânico 'The Guardian' publicou, no último sábado, a lista dos 'mil filmes para se ver antes de morrer' (pobre rima para '1000 films to see before you die').
Nessa lista, não só a tradução brasileira para o título passa vergonha, como a sua presença cinematográfica: apenas 4, entre os 1000 títulos são do País.

“Pixote - a lei do mais fraco”, de 1981, dirigido por Hector Babendo é o primeiro a aparecer. Em seguida, “O beijo da mulher aranha”, de 1985, do mesmo diretor.
Além desses, os outros títulos que fazem parte da lista são velhos conhecidos do público brasileiro, com o perdão da má escolha das palavras. Esclareço: não pelo ano produzido, mas ‘velhos conhecidos’ por sua grande expressão no País, "Central do Brasil" (1998) e "Cidade de Deus" (2001), dirigidos, respectivamente, por Walter Salles e Fernando Meirelles.

E acreditem ou não na ironia do destino, "Bad Santa" está lá!

Para isso deve haver uma explicação!
Não ouso procurá-la, porém – quem quiser - há de se concordar que uma lista feita por um diário conhecido mundialmente conta com filmes também conhecidos mundialmente e isso leva ao fato de que grandes produções artísticas do Brasil ou qualquer outro país que não tiveram projeção lucrativa ou publicitária nos cinemas, não constarão como películas que devam ser vistas antes da sua morte (!).

No entanto, sabe-se que a escolha é de cada um e eu – embora não interesse – ainda opto por abolir "Bad Santa" e achar incrível "Os Normais" afinal, comédia por comédia, o que é nosso é nosso!
E viva às frases esclarecedoras!

Enquanto isso, aqui no Brasil, o cinema novo de Glauber Rocha – ignorado pela lista – tem papel importante graças à sua inovação, que influenciou gerações de cineastas.
Já entre os grandes colaboradores do cinema nacional hoje, Selton Mello é um dos primeiros da fila. Com seu programa ‘Tarja Preta’ no Canal Brasil, apresenta personalidades nacionais em uma espécie de resgate histórico do cinema. Atuando, tem grandes performances na TV, no cinema e até em curtas-metragens, como em
“Tarantino’s Mind”.

Decida seus mil filmes – ou mais, ou menos – e assista-os.
Sem listas.
O melhor é se decepcionar ou se surpreender por conta própria, pensando depois e tirando suas próprias conclusões. Afinal, como disse a saudosa Vani, noiva do Rui, filmes americanos, que durante são ótimos, podem não ser tão bons assim, se você parar para pensar depois de assistir.

Incontáveis as vezes que isso já aconteceu comigo.

Alguém mais, alguém mais?

*Marina Aranha não tem criatividade. As aulas da faculdade não surtiram efeito.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Doença da meia-noite

Vai ser um inferno quando eu terminar Garotos incríveis, do Michael Chabon. É um daqueles livros seminais, pedra fundamental de certa fase da sua vida que vai acabar abruptamente quando você virar a página 331. Escrito há 12 anos atrás, virou até filme com Michael Douglas, dirigido pelo Curtis Hanson e ganhou Oscar de melhor música – Bob Dylan, em pessoa. Mas só isso não me satisfaz. Não vi nem quero vê-lo tão cedo assim. Nesse caso específico, a “imortalidade” da história transcrita em película não me dá tantos sinais de que os bons tempos voltaram e vou gozar novamente.



abram-se enormes parênteses: (foi exatamente assim (mas em outros termos) quando terminei Crime e castigo, depois de alguns bons meses, depois de alguns bons anos decifrando cada parágrafo monstruoso e cada sentença milimetricamente construída com uma pinça pelas mãos de Dostoievski. E foi assim quando vi Laranja Mecânica pela primeira vez, estuprado visualmente (Freud explica) e agarrado pelo estômago pra dentro da tela. E foi assim com A insustentável leveza do ser, e com “Black Napkins” do Frank Zappa, e com Crimes e pecados do Woody Allen, e com...)

Em Garotos incríveis, um escritor de meia-idade, maconheiro e irresponsável – e com um tremendo senso de humor – não consegue terminar um livro extenso que começou a escrever há mais de 7 anos. 2600 páginas depois, com a companhia de um bizarro e talentoso aluno da universidade (obcecado com os suicidas de Hollywood), uma aluna apaixonada por ele e seu editor tarado, desenrolam-se as desventuras de um homem comum, errante, desvirtuado, cujas perspectivas de vida não vão além do desejo de fumar um grande e gordo baseado no banco traseiro de seu carro. Grady Tripp sente um desprezo pela própria pessoa. Destruiu a vida de muitas pessoas, e sua consciência agora pesa tanto quanto seu manuscrito de “Wonder Boys”, calhamaço inacabado de personagens que vagam perdidas no tempo e no espaço.

Desrespeitando todas as leis de direitos autorais, saco a arma da reprodução desenfreada e atiro aqui, na cara do leitor, um de meus trechos preferidos, que acredito que definem o livro de Michael Chabon – e muito pretensamente, minha identificação pessoal com a obra.

Como Albert Vetch, ele parecia simultaneamente assombrado e desatento, o tipo de pessoa que num momento podia adivinhar, com frieza de tirar o fôlego, a tristeza mais profunda no coração dos outros, e no momento seguinte virar-se e, com um aceno de despedida alegre, marchar impassível através de uma porta de vidro, precisando de vinte e dois pontos na bochecha.
Foi na aula desse sujeito que me perguntei pela primeira vez se as pessoas que escreviam ficção não sofriam de algum tipo de desordem – sobre a qual comecei a pensar, lembrando do louco balanço noturno de Albert Vetch, como a doença da meia-noite. A doença da meia-noite é uma espécie de insônia emocional – a cada momento consciente a vítima - mesmo se escreve de manhã cedo ou no meio da tarde – sente-se uma pessoa deitada num quarto sufocante, com a janela aberta, olhando para um céu cheio de estrelas e aviões, ouvindo a narrativa de uma persiana barulhenta, uma ambulância, uma mosca presa numa garrafa de Coca, enquanto ao redor os vizinhos dormem a sono solto. Na minha opinião é por isso que os escritores – como os insones – são tão propensos a acidentes, tão obcecados com o cálculo do azar e das oportunidades perdidas, tão dados à ruminação e à incapacidade de abandor um assunto, mesmo quando lhe pedem repetidamente para fazê-lo.

Como Tripp adia o fim indefinido de seu Ulisses particular, adiarei o término dessa leitura, uma das mais prazerosas que já tive.

Mas não aguentarei 7 anos, nem fodendo.


* Fábio Bonillo está lendo Os subterrâneos, de Jack Kerouac, O amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, Introdução a análise do discurso, de Helena Brandão, Modern News Reporting, de Carl Warren, e Revista Mad #130 ao mesmo tempo.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Lições de Michael Moore

Sexta-feira estréia nos Estados Unidos o novo documentário de Michael Moore: Sicko. O filme trata do sistema de saúde estadunidense e o diretor visita países como França, Canadá e Cuba para fazer comparações e mostrá-las ao público.

E você não entendeu errado: Michael Moore foi mesmo buscar o exemplo em Cuba, a grande pedra no sapato dos EUA. Por isso, aliás, sua inimizade com o governo Bush voltou à tona – ou à mídia.

E os EUA podem aprender com cuba. Quem diria?

Na terra de Fidel Castro, os medicamentos são quase de graça e estão ao alcance de todos os cubanos, apesar da falta de tantas outras coisas. Enquanto isso, nos Estados Unidos o governo trabalha com um sistema burocrático para o atendimento da população.

Com uma ferramenta poderosa na mão, Michael Moore conseguiu, na última eleição presidencial dos EUA, causar impacto nos eleitores e no mundo todo, apontando pontos negativos e fazendo denúncias ao candidato George Bush.

Quem vê seus filmes, posta sua opinião em um dos dois lados: a manipulação do cineasta em cima dos espectadores, ou seu grande feito em desafiar graves questões nacionais sem solução aparente.

Não cabe aqui discutir a fama de manipulador de Moore e a ‘verdade’ de seus documentários. O que importa é a escolha feita pelo diretor: mostrar problemas reais, mesmo que contados de forma distorcida, que afetam – ou podem afetar – qualquer cidadão estadunidense.

E o que o Brasil pode aprender com isso? A cultura e a sociedade estão intimamente ligadas e, por mais que isso seja de conhecimento público, o uso do cinema, da TV e da literatura no País não parece estar de acordo com as reais necessidades da população, ou, pelo menos, se apresenta aquém de seu potencial.

Para permanecer no contexto:

O cinema no Brasil é caro se relacionado à renda da população. Carteirinhas falsificadas são feitas em busca de um preço mais acessível, que sobe devido a tanta meia-entrada. Um círculo vicioso que deixa o espectador brasileiro cada vez mais distante das telas e, por conseqüência, sem enriquecer sua percepção social do Brasil ou do mundo.

E não há como analisar a sociedade assistindo apenas a "Homem Aranha 3" - que por sinal não recomendo de forma alguma - ou "Piratas do Caribe". É preciso completar o entretenimento através de um cinema como alternativa para a busca do retrato social, contrabalanceando a enxurrada de blockbusters. Pelo menos até aparecer um Michael Moore brasileiro, que una o útil ao agradável.


*Marina Aranha gosta muito de documentários. Mas ela aguarda ansiosamente "A Volta do Todo Poderoso". Não pergunte o motivo!